16.1.14

Os rolês e os novos desdobramentos

Do G1.

Shopping de SP fecha as portas para evitar 'rolezão' de sem-teto

Integrantes do MTST se concentravam para evento em estação de trem. 
Participantes pretendem caminhar até dois shoppings na Zona Sul de SP.

Lívia Machado e Marcelo MoraDo G1 São Paulo
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Integrantes do MTST se concentravam para evento em estação de trem.  (Foto: Marcelo Mora/G1)Integrantes do MTST se concentravam para evento em estação de trem. (Foto: Marcelo Mora/G1)

O Shopping Campo Limpo, na Zona Sul de São Paulo, conseguiu uma liminar na Justiça e fechou as portas na tarde desta quinta-feira (16) antes do "rolezão popular", como foi chamado o protesto programado por movimentos sociais. Integrantes do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) se concentraram na estação Campo Limpo da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) e seguiram até o estabelecimento comercial.
O MTST faz um ato contra liminares concedidas pela Justiça de São Paulo que impedem a realização dos chamados “rolezinhos”. Também convocados no Facebook como “Rolé”, “Rolê”, “Rolezaum”, “Rolezão”, “Rolézinho”, os eventos são encontros de jovens e adolescentes marcados para espaços como parques e shoppings.
Integrantes do MTST se reúnem em estação Campo Limpo da CPTM (Foto: Marcelo Mora/G1)Integrantes do MTST se reúnem na estação Campo
Limpo da CPTM (Foto: Marcelo Mora/G1)
O Shopping Campo Limpo conseguiu uma liminar na Justiça contra o protesto. Quem descumprir a decisão poderá receber multa de R$ 5 mil. Em sua decisão, o juiz Alexandre David Malfatti, da 7ª Vara Cível, afirma que o centro comercial não tem condições de abrigar o encontro.
“Não se trata de inferir que os manifestantes sejam marginais ou que queiram, premeditadamente, causar dano pessoal ou patrimonial”, afirma o magistrado. “Trata-se da reação normal de pânico e desordem que se espera quando milhares de pessoas chegam a um local fechado, com corredores estreitos e poucas saídas para todos.”
A programação dos sem-teto é seguir em caminhada de duas estações da CPTM até dois shoppings da Zona Sul. Às 17h50, integrantes do MTST fechavam os dois sentidos da Estrada de Itapecerica, onde fica uma das entradas do Shopping Campo Limpo. Cerca de cinco minutos depois, o sentido Marginal foi liberado.
Entenda os rolezinhos - cronologia e proibição (Foto: Arte/G1)
Um lojista que preferiu não se identificar relatou ao G1 que o Shopping Campo Limpo fechou por volta das 17h, mas que o clima era tranquilo. Apenas os clientes que já estavam dentro do estabelecimento puderam permanecer. A assessoria do shopping confirmou por volta das 17h30 que as portas foram fechadas. 
Jardim Sul
Além do Campo Limpo, o Shopping Jardim Sul também será destino de integrantes do MTST. A assessoria do shopping disse que, às 17h30, o estabelecimento comercial permanecia aberto. Em nota, o Jardim Sul diz que "estão sendo tomadas todas as medidas preventivas para garantir a segurança e bem estar dos clientes, lojistas e colaboradores".
A concentração do MTST para seguir até o Jardim Sul aconteceu na estação Giovanni Gronchi da CPTM, na mesma região da cidade. O grupo saiu em caminhada pelas ruas por volta das 17h40. "Vamos em apoio a esses jovens da periferia que não tem acesso a nada", defende Ana Paula Ribeiro, da coordenação do MTST.
A coordenação descarta estender a manifestação para outro local, na impossibilidade de realizar o protesto dentro do centro comercial. Se o grupo não conseguir entrar no Shopping Jardim Sul, fará uma manifestação e encerrará o ato.
Ana Paula defende o caráter social do ato. Para ela, os jovens não estão apenas em busca de paquera e badalação. "A gente não identifica como tão superficial assim. Para a gente é um caráter social", disse.
Segundo a coordenação do MTST, o 'Rolezão Popular' é “contra a discriminação social e racial imposta pelo Judiciário e por shoppings”, afirmou, em nota. “O objetivo é denunciar o apartheid imposto contra os moradores de periferia, impedindo-os de circular nos shoppings.”
Guilherme Boulos, um dos coordenadores do MTST, diz que a ação da Justiça segrega a sociedade e provoca um apartheid. “Nós lutamos contra a segregação contra o povo da periferia. A forma como a Justiça vem tratando isso é totalmente discriminatória, barra quem é negro, quem tem cara de pobre”, afirmou. “A sociedade lamentou há um mês a morte de Nelson Mandela [líder negro] e ao mesmo tempo está comandando um apartheid social”, acrescentou.
Para Jussara Basso, integrante do MTST, a liminar que impede a entrada e circulação de shoppings em São Paulo é revoltante. “Nós somos uma bandeira social com um todo. O movimento racial e social contra negros e pobres é revoltante”, justifica.

15.1.14

Improbidade requer enriquecimento ilícito?

Do Conjur

Improbidade não depende de enriquecimento ilícito

A inexistência de dano aos cofres públicos e a falta de comprovação de enriquecimento ilícito não impedem a condenação por atos de improbidade administrativa. A inércia de um ex-prefeito diante de vários avisos sobre irregularidades no andamento de uma obra bastou para a Justiça de Goiás determinar que ele fique proibido de firmar novos contratos públicos por três anos, tenha os direitos políticos suspensos pelo mesmo período e pague multa de aproximadamente R$ 60 mil.
A decisão atinge o presidente do PDT no estado, George Morais, e foi proferida no dia 7 de janeiro pelo juiz Éder Jorge, da 2ª Vara Cível, Fazendas Públicas e Registros Públicos da comarca de Trindade. Morais, prefeito do município entre 2001 e 2008, foi denunciado pelo Ministério Público sob a acusação de ter cometido irregularidades na construção de um aterro sanitário, fruto de um convênio com o Ministério do Meio Ambiente.
Segundo os autos do processo, o ex-prefeito não seguiu obrigações técnicas exigidas pela pasta na construção do aterro, deixou de solicitar a licença ambiental necessária para a inauguração do local, manteve em funcionamento o lixão do município e descumpriu ações estabelecidas em Termo de Ajustamento de Conduta celebrado com o Ministério Público.
A defesa de Morais defendeu a inexistência de improbidade administrativa, por afirmar que não houve enriquecimento ilícito, dano ao erário nem dolo. O juiz, porém, disse que a comprovação dos dois primeiros elementos não era necessária no caso, bastando a demonstração de que o ex-gestor municipal ficou “inerte” diante de “diversas” reprovações das contas apresentadas ao Ministério do Meio Ambiente.
Para o magistrado, houve sim dolo por parte do réu ao “utilizar o Poder Público para a prática de ato contrário aos princípios da moralidade e eficiência, mesmo ciente da reiteração nas irregularidades de suas práticas e/ou omissões”. “Como chefe do Poder Executivo municipal, era seu dever prestar contas atempada e eficientemente”, afirmou o juiz. Ainda cabe recurso. Com informações do Centro de Comunicação Social do TJ-GO.
Clique aqui para ler a decisão.Número do Processo: 2009.0018.5125

12.1.14

É a jurisprudência corrigindo injustiça

Do Estadão

STJ barra blindagem de bens de casais ricos

Decisão pode evitar fraude na hora da separação e permitir que uma das partes recupere patrimônio colocado em nome de empresas ou laranjas

12 de janeiro de 2014 | 2h 06

Luciano Bottini Filho - O Estado de S.Paulo
A blindagem do patrimônio de casais ricos, que tentam fugir de impostos, se tornou um tiro no pé na hora da separação. Bens são colocados em nomes de laranjas e empresas de fachada e podem deixar cônjuges que tinham uma vida de luxo sem nada.
Bianca Lindo quer comprovar patrimônio do ex na Justiça - Marcos Arcoverde/Estadão
Marcos Arcoverde/Estadão
Bianca Lindo quer comprovar patrimônio do ex na Justiça
O Superior Tribunal de Justiça (STJ) abriu um precedente, no fim do ano passado, para que a parte lesada recupere carros, imóveis e contas bancárias que foram parar em nome de uma pessoa jurídica. Essa, segundo especialistas, é uma das artimanhas mais comuns para ocultar ou se desfazer de bens antes da partilha. A simulação prejudica também quem precisa ir atrás da pensão, mas não consegue provar a fortuna de quem se recusa a pagar.
A decisão do STJ é mais uma esperança para Bianca Lindo, de 38 anos, que trava uma batalha judicial com o ex-marido para ter uma melhor pensão para os dois filhos - hoje eles recebem dois salários mínimos cada um. Os sinais exteriores de riqueza do ex-marido, segundo ela, são muitos: uma casa de cinco suítes na Barra da Tijuca, no Rio, um BMW e um Porsche, barcos e participação em três empresas. "Por enquanto, nada disso está no processo, porque ele não consta nas empresas. Ele tem procuração de laranjas, como funcionários e motoristas", diz ela.
O ex-marido de Bianca nega as acusações e a ação ainda será julgada em segunda instância. Ela também usou fotografia de quando o ex estava com os filhos. "É uma diferença enorme entre meu padrão e o dele. Vivo de favor com a minha mãe."
Dinheiro sumiu. "Se o marido era rico e agora não é, a primeira coisa a fazer é olhar a contabilidade da empresa dele, escrita em idioma que os mortais não entendem", explica o professor de Direito Societário da Universidade Fumec, em Minas, Gladston Mamede. As pessoas lesadas, segundo a advogada Clarissa Bernardo Campos, em geral, são "mulheres com vida bastante confortável, sem preocupações, que confiam plenamente no marido".
Andreia Paulo, de 45 anos, divorciada desde 2011 após um casamento de 18 anos, não entendia de finanças quando percebeu que até os barcos da família haviam sido registrados por uma empresa. "Ele vendeu um prédio de R$ 5 milhões sem me consultar. Mas não houve tempo para manobras, contratei um advogado logo."
A brecha para que o ex-marido administrasse os bens foi aberta quando ele propôs passar as cotas da empresa que detinha todo o patrimônio da família para o nome dos dois filhos. Andreia aceitou fazer uma doação em vida e terminou com 17% da sociedade.
Andreia alega que foi vítima de chantagem. "Ele tentou de tudo para eu fazer um acordo. Tirou até meu plano de saúde." Hoje, com a ação ganha, ela está segura que deu a volta por cima.

3.1.14

Em busca da eficiência perdida

Surpreendente ver o número de referências feitas no dia de ontem pelo presidente Nalini à questão da eficiência.

Logo em seguida ao seu breve discurso ontem na Apamagis eu não pude deixar de notar isso e até comentei com outro colega ali presente. Até achei que esse colega fosse concordar com o Nalini e dizer algo em linha defensiva, como é extremamente comum ver em tantos colegas, mas ele, em silêncio, concordou comigo.

O problema desse discurso é o mesmo que vemos em tantos discursos do CNJ: tenta-se curar a deficência de todo um SISTEMA marcado pela irracionalidade, esperando-se que somente os juízes sejam os racionais, os lógicos, os sensatos, os corretos.

Vejam só um exemplo. Um procurador do Estado pode deixar de recorrer ou de propor uma ação se ele entender que a causa é perdida. O problema é que ele tem que fazer uma representação ao seu superior e esperar aprovação. O caso é que, no caso de um recurso de apelação, por exemplo, o prazo não espera. Assim, para evitar problemas, ele recorre.

Outro exemplo, a questão das execuções fiscais. A propositura em massa ocorre para evitar a prescrição. O problema é que se cobram valores muitas vezes irrecuperáveis. As prefeituras, por outro lado, consideram menos oneroso ajuizar para evitarem problemas mais à frente com o Tribunal de Contas. Esse, que deveria zelar pela racionalidade e eficiência, apenas muito recentemente vem percebendo que não adianta a propositura em massa com chance zero de recebimento. Digo que apenas recentemente começou a atentar para isso, mas não tenho certeza alguma, na verdade, que isso venha a se consolidar numa tendendência certa, clara.

Outro ponto. Na gestão do presidente Sartori tentou-se uma mudança no horário de atendimento ao público que muito auxiliaria a produtividade dos funcionários do Tribunal. A OAB e as entidades dos advogados caem de pau em cima de disso. Será que não custa olharem para o lado e verem, por exemplo, o horário de atendimento dos bancos, só para comparar? O horário de funcionamento do Judiciário, ou melhor o horário de atendimento ao público do Judiciário é muito maior que o dos bancos, por exemplo.

O novo presidente do Tribunal marca uma mudança muito grande: dado o seu imenso trânsito em diversos setores da sociedade, ele começa a gestão trazendo a voz externa, a voz da sociedade civil para dentro do Judiciário e falando em nome dessa voz (isso ficou bem claro ontem na fala na Apamagis). Muito bem. Espero, por outro lado, que ele fale para tais setores lembrando que não é só o Judiciário que deve ser racional e eficiente. Todos devem ser. Sem essa colaboração, de nada adianta ter o Judiciário remando sozinho. O barco fica girando e não sai do lugar.

Mas eu voltarei a esse tema da eficiência.

Mais Nalini

Essa vem do blog do Fausto Macedo

Leia os principais pontos da entrevista concedida pelo desembargador José Renato Nalini, após sua posse na presidência do Tribunal der Justiça de São Paulo, nesta quinta feira, 2.
por Fausto Macedo

PARCERIAS
Nós precisamos de todos para que essa gestão corresponda às nossas aspirações e aos sonhos que são bastante ambiciosos. Trabalhar nós vamos trabalhar, mas precisamos da ajuda de todos. A Justiça não é só nossa, a Justiça é do Brasil e o Brasil precisa cada vez mais de Justiça. O maior Tribunal de Justiça do mundo não pode ser o maior só em tamanho, mas o melhor em eficiência e atendimento às espectativas e um pouco sequioso de Justiça num País de tantas iniquidades.
EPIDEMIA DE PROCESSOS
Vamos adotar estratégias para vencer essa epidemia de processos, não é normal que um País tenha 93 milhões de processos para 200 milhões de habitantes. Estamos judicializando questões que não precisam chegar ao Judiciário, um equipamento dispendioso, complexo, com 4 instâncias. As pessoas precisam pensar se vale a pena recorrer a esse acesso indiscriminado à Justiça, cuja saída é imprevisível. Não se sabe nem quando terminará o processo, nem qual será o resultado.
DEBATE COM A SOCIEDADE
É um debate grande, que precisa envolver toda a sociedade. É muito gratificante dizer que estamos no maior tribunal do mundo, mas será que é o melhor tribunal do mundo?, é o mais eficiente? Essa é a nossa meta, conferir eficiência à prestação jurisdicional. O Poder Judiciário precisa trabalhar com a sociedade, estamos num caso emblemático, que é São Paulo, o maior tribunal do mundo. Adianta proclamar que é o maior do mundo? Na Justiça convencional, o processo judicial, embora seja a forma mais civilizada de resolução dos conflitos, não me parece a ideal. Porque o processo faz com que aquilo que nós chamamos sujeito processual, na verdade, seja um objeto da vontade do Estado-juiz.
Qualquer pessoa que litiga tem essa experiência, ele tem uma dor concreta, um prejuízo, uma perda patrimonial, uma perda da liberdade, uma lesão à honra, muito concreto. Ele sente essa angústia, mas o que ele faz? Ele narra isso a um profissional, a um advogado, e a partir daí, se houver ingresso em juízo, o titular da perda praticamente fica excluído, ele não vai mais ser ouvido. Pode até ser ouvido, mas será através da condução das perguntas elaboradas pelo juiz, com a linguagem do juiz, não terá oportunidade de narrar o evento que o levou a procurar a Justiça, com suas próprias palavras, numa Justiça com 4 instância, o juiz do primeiro grau, o tribunal, e as coisas podem chegar ao Superior Tribunal de Justiça, que teria a função de pacificar a jurisprudência da lei federal, e não é raro (uma demanda)chegar ao Supremo Tribunal Federal. Quatro instâncias prolongam indefinidamente o andamento, a duração dos processos.
PEC DO PELUSO (proposta de Antonio Peluso, ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, que prevê execução da sentença já a partir do segundo grau)
Sou favorável. Nosso sistema é caótico, kafkiano, temos mais de 50 possibilidades de reapreciação do mesmo tema, o sistema recursal é muito sofisticado, é muito complexo. Sou favorável á redução (de instâncias), é uma estratégia muito importante de se valorizar a primeira instância. Os processos deveriam terminar no primeiro grau de jurisdição, ter uma ou outra decisão que precisasse ser reavaliada. O juiz de primeiro grau é o que tem contato direto, está na trincheira, ouve as partes, o fato acabou de acontecer, as coisas estão muito mais próximas . À medida em que os processos vão subindo às superiores instâncias vamos estudando teses, teorias, trabalhamos mais com as leituras, as interpretações do ordenamento e não com o fato concreto, que levou a pessoa a procurar a Justiça.
UM JUIZ EM CADA ESQUINA
A Justiça no Brasil tem que continuar crescendo, tem que chegar a um juiz em cada esquina? Temos que aumentar o número dos tribunais?, temos que aumentar os cargos, aumentar as estruturas? Ou precisamos tonar a Justiça mais eficiente para que ela produza mais, para que seja uma espécie de orientadora da aplicação da lei, para que a advocacia, essencial à administração da Justiça, cumpra o seu papel também de pacificação, de orientar as partes para que elas prefiram um acordo, uma conciliação, uma negociação?. Como não agigantar ainda mais o Judiciário? Estamos adotando estratégias de pacificação, em demandas que não tenham necessidade imprescindível de ingressar em juízo. Na gestão passada foram instalados 100 centros de cidadania. Isso é importante, vamos fazendo com que as pequenas questões sejam resolvidas prontamente.
BOLSA JUSTIÇA
A Justiça deveria ser reservada para as grandes questões. Não podemos continuar nessa linha de judicialização de tudo, as questiúnculas, as discussões, as brigas de vizinho, os ressentimentos. Não pode ser tudo convertido em ação judicial. Sabemos que a porta da Justiça ficou escancarada, foi ampliada, mas e a saída? A saída é um funil, quando é que termina um processo?, quanto tempo leva para terminar um processo? Você tem certeza que, ao final das 4 instâncias, a Justiça vai dar razão? Não temos esse prognóstico. Não quero aliviar o serviço do Judiciário, não quero dizer, em hipótese alguma, que o Judiciário quer trabalhar menos. Não é isso. O problema é que se continuarmos a fazer uma espécie de Bolsa Justiça, que alguém entre na Justiça apenas porque é de graça, é barato, porque declina de participar da discussão e entrega para um técnico, estamos fazendo com que sociedade seja puerilizada, infantilizada, não tenha condições de dialogar.
ESTADO-JUIZ
Quando vamos ter uma sociedade madura, capaz de se sentar à mesa e discutir e entender o ponto de vista do adversário para poder transigir, sabendo que se ela desistiu de uma coisa foi porque exerceu a sua autonomia? Em relação à solução negociada, conciliada, a ética é muito maior. Porque houve autonomia do indivíduo. Estamos fazendo um indivíduo ser protagonista, discutindo os seus problemas. Enquanto que, endereçando tudo para a Justiça, é o Estado-juiz que resolve o tamanho do seu prejuízo, ele tarifa a sua perda moral. Você é objeto da decisão do Estado-juiz. A decisão judicial é a mais utilizada das soluções de conflito, é a mais poderosa, mas pode ser, à vezes, não tão justa quanto aquela que resulte de um diálogo. Esse debate é a sociedade que tem que travar, senão vamos continuar nesse discurso de que precisa de mais juiz, de mais estrutura, de mais tribunais.
COBRAR DÍVIDAS É FUNÇÃO DA JUSTIÇA?
A grande maioria das ações envolve bancos, operadoras de telefonia e o poder público. Mesmo como corregedor eu já vinha tentando obter a colaboração desses maiores demandados, os maiores ‘clientes’ da Justiça, seja no polo passivo seja no ativo. Já vínhamos tentando obter alguns resultados, o Conselho Nacional de Justiça até já cadastrou os 100 maiores ‘clientes’. Com os bancos tivemos alguns progressos, como redução do número de folhas de contratos de financiamento imobiliário. São contratos, em geral, com 60 laudas, 48 laudas, que repetem a legislação. Alguns bancos já reduziram para 8 laudas. Veja as execuções fiscais. Cobrar dívida do Estado e dos municípios não é função do Judiciário. Na Corregedoria preparamos uma cartilha incentivando municípios a utilizar cartórios de protesto, a terem um cadastro melhor e a adotar outras medidas para receber, em vez de atulhar a Justiça de milhões de certidões de dívida ativa. Em São Paulo são 12 milhões de certidões. É função da Justiça ficar cobrando dívida de IPTU dos municípios? É uma demanda que representa quase 90% das ações. Esse trabalho vai continuar, mas precisamos rediscutir a Justiça brasileira.
REFORMA
A profunda reforma estrutural da Justiça não foi feita. As reformas do Judiciário continuam a insistir na lentidão. Haveria necessidade de inclusão do inciso 78 no artigo 5.º da Constituição, segundo o qual todos têm direito à oportuna prestação jurisdicional e aos recursos a ela inerentes? Isso já era implícito, já daria para extrair da Constituição. O Judiciário é serviço público, tem obrigação de ser eficiente. Por que a insistência?
METAS DE PRODUTIVIDADE
A lentidão é a única mácula consensual. Por que o CNJ começa a estipular metas de produtividade? Há um tempo li um crítico da Justiça, aliás todos são especialistas em Justiça no Brasil, todo mundo tem palpite, esse crítico falava da produtividade. Segundo ele, o juiz que não decide é punido, enquanto o juiz que decide mal é elogiado. Mas é claro, a resposta é muito simples. O juiz, quando decide mal, nas 4 instâncias alguém vai corrigir. Mas ele decidiu, entregou a prestação jurisdicional, enquanto que a sentença que não vem é um castigo permanente para aquela parte que está esperando a decisão. É muito mais nefasto o juiz não decidir do que decidir mal, porque decidindo mal a parte tem como recorrer, segurança jurídica vem através de uma decisão. Quem é que tem a infalibilidade papal? O juiz não tem. O Judiciário não tem. Num sistema como o nosso, o que vale é a interpretação. É muito comum que as pessoas não cheguem a um acordo. O Supremo não fica às vezes dividido? E são os 11 ministros, 11 seres humanos, encarregados de definir o que é constitucional e o que não é. Então, a meta da produtividade é saudável sim, pelo menos a parte tem uma decisão sobre a qual ele vai fazer incidir suas críticas.
LEIS E NORMAS EM PROFUSÃO
O pensamento é outro, hoje, O Judiciário continuará a ser o grande fornecedor da orientação jurídica, ele é o especialista em Direito. Agora, num País que toda hora tem lei, afinal, hoje todo mundo legisla, não é só o Parlamento, aliás o Parlamento é o que menos legisla, mas as agências, o BNDES, o Banco Central, todo mundo normatiza, e na verdade isso é legislar, num País assim você precisa de um tempo para mostrar qual seria a orientação. Não é para aliviar o Judiciário, é para formar uma cidadania madura, que tenha capacidade de implementar a democracia participativa.
RESPEITO AO MEIO AMBIENTE
Quero fazer com que o Judiciário não seja o mais antiecológico dos poderes. Vou reduzir ao máximo o suporte papel, inclusive vamos cortar os cartões de Natal, de aniversário, tudo tem que ser feito através de comunicação eletrônica. Vamos reduzir drasticamente o uso do papel, o Poder Judiciário é o mais anti ecológico dos poderes. Parece pouco, mas se economizarmos nas pequenas coisas vamos ter como custear as grandes demandas. Por isso, a importância da digitalização dos processos, gradualmente, sem ferir interesse nenhum.
PRONTO SOCORRO
Vamos reduzir a atividade meio e investir na atividade fim, estimulando a produtividade. Como? Priorizando a primeira instância. Vamos fazer um levantamento para identificar porque algumas varas com a mesma distribuição de ações está rigorosamente em dia e outras atrasadas. Vamos readequar o quadro funcional, está na hora de os servidores retribuírem com maior produtividade. Vamos investir no que chamamos de ‘pronto socorro’. As varas com problema sério, muito acúmulo de processos, contarão com os trabalhos da equipe de auxílio transitório. Vamos lá com um grupo de juízes e servidores e resolvemos, a pauta em dia. Vamos criar novas estratégias de produção, um projeto para agilizar, sem sufocar a criatividade de muitos funcionários que estão na linha de frente e que descobriram métodos para queimar etapas, reduzir fluxos. Podemos premiar as melhores performances. O Poder Judiciário depende do seu pessoal, então, que ele se sinta estimulado a corresponder às espectativas. Mas também temos que envolver todos os parceiros, todas as entidades, centros de inteligência, cérebros que podem contribuir para trazer novos métodos.
ELEVADO CUSTO COM ARQUIVAMENTO DE PROCESSOS
Causa espanto que, em algumas décadas viraremos pó, naturalmente por combustão ou quem preferir cremado, enquanto o processo tenha que ser guardado perpetuamente. São Paulo gasta R$ 5 milhões por mês para guardar processos findos. A Justiça precisa de outros investimentos para poder atender sua finalidade, que é solucionar conflitos. Mas estamos em vias de ser assinado contrato de R$ 431 milhões para guardar processo findo. E fico em uma situação profundamente desconfortável. É incabível guardar processos findos, que têm vocação de perenidade. Por que processo também não pode ser destruído?
PRÉDIO DE R$ 1 BILHÃO (projeto de construção do edifício para alojar os gabinetes dos desembargadores no Centro de São Paulo)
Nem por sonho, estive com o governador, foi assinado convênio em que há um protocolo de intenções para que isso seja fruto de uma PPP (Parceria Público Privado), mas depende de um conselho gestor que tem que analisar os impactos das grandes obras no Centro. Paralelamente, vou tentar implementar uma outra ideia, uma descentralização. Não se justifica fazer todas as sessões do tribunal com 360 desembargadores, todas em São Paulo, num trânsito caótico. Vou tentar levar para as regiões administrativas, desde que haja interesse dos desembargadores e depois de um levantamento sobre o número de processos compatível para fazer com que as sessões sejam realizadas nas regiões administrativas. Fica muito mais fácil para o advogado local e para a parte local, que pode assistir e colaborar para descongestionar esse trânsito caótico aqui da Capital. Prioritariamente, as sessões poderão ser realizadas em São José do Rio Preto, Ribeirão Preto e Campinas, regiões que mais tenham processo na segunda instância.

2.1.14

O que esperar?

Do Estadão.

O que esperar da Justiça?

02 de janeiro de 2014 | 2h 02

José Renato Nalini* - O Estado de S.Paulo
O Judiciário é o grande protagonista da cena estatal neste início do século 21. Todas as questões humanas são agora livremente submetidas à sua apreciação. No cenário micro, as pessoas perderam o receio de ingressar no Fórum, descobriram o acesso à Justiça e a ela recorrem com desenvoltura. No mundo macro, todas as políticas públicas passam pelo Estado-juiz, graças a uma Constituição que subordina a administração pública a princípios judicialmente aferíveis. Qualquer atuação estatal resta jungida à avaliação de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência. Diante desse comando explícito, ficou superado o óbice à incursão judicial sobre o mérito administrativo. Antes, alguns assuntos residiam na esfera da discricionariedade do administrador. Agora, incumbe ao juiz examinar se o gestor da coisa pública observou estritamente a vontade constituinte. Constatado o desvio, o julgador se arroga na função governativa.
Resultado dessa redescoberta da Justiça foi o excessivo demandismo brasileiro. Tramitam atualmente 93 milhões de processos para 200 milhões de pessoas. Como se todos os habitantes desta Nação estivessem a litigar. A beligerância parece a regra para quem observa o Judiciário desta era. Administrar o crescente número de ações judiciais requer prudente análise do fenômeno. A resposta singela e tradicional é multiplicar as estruturas do Judiciário, com criação de mais unidades, ampliação do quadro de pessoal e urgência na obtenção de orçamento compatível com as necessidades atuais e vindouras.
Outra leitura implicará prover a Justiça de gestão competente para acelerar a outorga da prestação jurisdicional sem aumentar em demasia as atuais estruturas. Para isso a informatização deve ser otimizada, de maneira a propiciar maiores resultados, a par de capacitação e motivação do funcionalismo a oferecer o melhor de seus préstimos, sem a promessa de inflação do quadro de servidores. O funcionário estimulado se convenceria de que é mais eficaz investir numa carreira prestigiada, com perspectivas de ascensão funcional e de retribuição por desempenho, em lugar da proliferação infinita de cargos e funções mal remuneradas.
As especificidades da Justiça não a isentam de absorver a cultura dominante, em que o ritmo da sociedade não se compadece mais com a lentidão do processo judicial. O modelo de quatro graus de jurisdição impõe ao demandante e ao demandado um suplício que se não confunde com perder o pleito: aguardar durante longos anos que se profira o julgamento definitivo, após as idas e vindas de instâncias intermediárias. Sem falar nas dezenas de oportunidades de reapreciação do mesmo tema, ante o caótico esquema recursal.
A par disso, a Justiça tem de continuar a conviver em harmonia com as várias alternativas de solução de conflito que prescindem da intervenção judicial. Seu papel é sinalizar qual a leitura predominante do ordenamento para que a pacificação resulte de um desenvolvimento da autonomia cidadã. Incentivar a conciliação, a mediação, a negociação, a transação, a celebração de acordos após imersão das partes na realidade que bem conhecem é fundamental para que impere a efetiva justiça no Brasil.
Investir na cultura do diálogo não interessa exclusivamente ao Judiciário, para mero alívio de sua insuportável carga de trabalho. A questão é muito mais séria e abrangente. Entregar todos os interesses ao Judiciário, agora, significa formatar uma cidadania inoperante, incapaz do diálogo, e tornar cada vez mais remota a potencialidade de implementação de uma democracia participativa. Como preparar o cidadão para contribuir na gestão da coisa pública, se seus problemas, até os de menor dimensão, precisam ser decididos no formalismo do Judiciário?
Não interessa à República brasileira inibir o protagonismo dos brasileiros, convertendo-os em membros de uma sociedade tutelada, a depender do Estado-juiz para a resolução de problemas que podem ser enfrentados na madura e saudável discussão dos próprios interessados. A solução negociada é muito mais ética que a decisão judicial. Esta é a mais forte, a mais poderosa, mas também a mais precária das respostas. A parte insatisfeita sempre poderá fazer ressurgir o conflito mal resolvido, pois a decisão nem sempre atinge o mérito e se resume a um aspecto processual, além do sabor frustrante de um julgamento epidérmico. Aquele que não enfrentou o cerne da controvérsia, manteve-se nos aspectos rituais e manteve incólume - ou até agravada - a desinteligência deflagradora da ação judicial.
Embora a teoria chame de "sujeito processual" a parte em litígio, na verdade o interessado representa um "objeto da vontade do Estado-juiz". Este é que tarifará a dor, o prejuízo, a angústia, a liberdade ou o patrimônio de quem recorre ao Judiciário. Iniciada a ação, o interessado não tem vez nem voz direta no processo. Resta-lhe aguardar, pacientemente, o advento da coisa julgada, após labiríntico percurso nos meandros das instâncias.
Promover a paz, evitar os conflitos, é dever de todos. Mas é obrigação precípua da comunidade jurídica. Todos devem contribuir para evitar lides temerárias, para promover a conciliação, para tornar o convívio algo respeitoso, se possível amistoso e saudável.
Postas as alternativas - manter o crescimento e a atual concepção do que deva ser o Judiciário ou proceder a um inadiável aggiornamento -, cabe indagar: o que se deve aguardar da Justiça brasileira?
O Judiciário é um Poder da República e se exterioriza em serviço público posto à disposição da população. O erário, que sustenta a máquina, é fruto da arrecadação tributária a todos imposta. Por isso a população titulariza o direito e, mais que isso, o dever de participar das discussões que redesenhem a Justiça. Ou se continua no curso de dilatação dimensional para fazer do Brasil um imenso tribunal, com um juiz em cada esquina, ou se ajusta o passo do Judiciário com a contemporaneidade.
Você, brasileiro, é que decide.
*José Renato Nalini é presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo. 

29.12.13

Do site do TJ/SP

28/12/2013 - MAGISTRADOS PAULISTAS PARTICIPAM DE ENCONTRO COM JUÍZES DE 66 PAÍSES NA ÍNDIA

        Comitiva de juízes brasileiros esteve entre os dias 14 e 17 deste mês na Índia
 para participar do 14º Encontro Mundial de Chefes de Justiça, promovido pela City
 Montessori School e realizado na cidade de Lucknow, estado de Uttar Pradesh. 
Estudantes da instituição de ensino também participaram do evento.
        Os juízes paulistas José Tadeu Picolo Zanoni (Comarca de Osasco); 
Daniela Mie Murata Barrichello (Comarca de Limeira); Marina Freire (Comarca de Garça);
 Ana Rita de Figueiredo Nery (Comarca de Guarulhos); Rafael Imbrunito Flores 
(Comarca de Monte Mor) e Roberta de Oliveira Ferreira Lima (Comarca de Avaré)
 estiveram no encontro e também participaram de atividades na cidade de Nova Délhi.
        De acordo com José Tadeu Piccolo Zanoni, o encontro é voltado para a ideia
 de que é preciso um estado para assegurar a paz mundial. Ele também destacou
 a importância da troca de experiências com magistrados de outros países.

        Comunicação Social TJSP – RP (texto) / arquivo (fotos)
        
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