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12.2.12

Garzón, exilado?

Do Estadão de hoje


Garzón, o último exilado de Franco?

Condenação do célebre juiz reabre na Espanha o que nunca foi de fato investigado: os crimes da era do 'generalíssimo'

12 de fevereiro de 2012 | 3h 09
, GENEBRA - O Estado de S.Paulo
JAMIL CHADENesta semana, a Corte Suprema da Espanha condenou o juiz Baltasar Garzón e desestruturou sua carreira. O motivo oficial eram as escutas que o juiz ordenou de forma ilegal em um caso de corrupção. Mas instituições de defesa dos direitos humanos e personalidades de todo o mundo insistem em que a razão da condenação seja outra: um castigo à tentativa de Garzón de investigar os crimes do regime de Franco, assunto tabu na Espanha. A Anistia Internacional, por exemplo, ironizou. "Finalmente, depois de décadas, alguém é condenado pelos crimes do franquismo", dizia a nota emitida pela entidade. "O problema é que a pessoa condenada era o juiz que tentava investigar esses mesmos crimes."
Sem jamais ter tido um julgamento dos responsáveis pelos crimes nem mesmo um pedido de desculpas por parte dos herdeiros de Franco, a sociedade espanhola ainda não conseguiu superar o trauma da Guerra Civil dos anos 30 e os anos da ditadura. Nesta semana, esteve cara a cara com sua história não resolvida em uma comissão da Verdade improvisada, mas não menos dramática.
Para tentar se defender da acusação de que violou as leis de anistia do país, a defesa de Garzón levou ao tribunal as famílias das vítimas para contar suas histórias às câmeras de todo o mundo. Garzón não mais poderá investigar essas alegações e os criminosos talvez nunca sejam responsabilizados. Mas o juiz conseguiu o que aparentemente a lei o proibia de fazer: obrigar que a Justiça escutasse essas testemunhas e levar o sofrimento de vítimas para dentro da casa de cada espanhol, em horário nobre.
Cópias dos depoimentos mostram que não foram os sobreviventes da tortura franquista nem seus filhos que tomaram a iniciativa de se expor. Foram os netos, nascidos já quando Franco estava morto. Eles coletaram informações por meses e chegaram à constatação de que o regime havia deixado como herança o desaparecimento de 110 mil pessoas, jogadas em fossas comuns por todo o território espanhol.
Josefina Musulén Jiménez foi uma das testemunhas. Contou que, no dia 13 de agosto de 1936, um falangista entrou em sua casa e levou seus avós, ambos republicanos. A avó estava grávida na época, o que poderia significar que seria poupada. Mas, ao procurá-la num quartel da Falange, um de seus irmãos saiu arrasado. Disseram-lhe que o ventre da irmã havia sido aberto e ela estava morta.
Quarenta anos depois, já com Franco sepultado, Josefina teria encontrado amigos do avô. Eles revelaram que, na verdade, sua avó havia sido levada a um hospital e dado à luz um bebê que foi tirado dela. "Essa criança sumiu para sempre", disse. "Por 33 anos buscamos essa menina, a irmã de meu pai."
Não resta dúvida de que os crimes foram cometidos de ambos os lados durante a Guerra Civil, mas as ligas de defesa dos direitos humanos lembram que, enquanto os órfãos dos republicanos foram abandonados pelo Estado, os filhos das vítimas do campo franquista tiveram amplo apoio do governo com a vitória de Franco. Por décadas receberam uma espécie de salário como reconhecimento pelo heroísmo dos pais. Tiveram facilidades para estudar e ainda ganharam apartamentos que pertenceram aos "vermelhos", os comunistas.
De uma família "vermelha", Maria Antonia Oliver Paris estava no julgamento de Garzón. "Minha mãe levou comida na prisão a meu avô e meu tio, irmão dele, durante seis meses", relatou. "Um dia, na primavera de 1937, disseram que eles haviam sido liberados, mas todos sabem que foram levados de mãos atadas a uma força armada da Falange." Ela continua: "Minha avó e minha mãe nunca os viram mortos. Ouviram que meu avô era um covarde que havia fugido com outra mulher para Barcelona ou Menorca. Meu avô morreu e quero que minha mãe, com 87 anos, possa fechar as feridas com a verdade e a justiça. Um delito como esse não prescreve, a dor é permanente."
Olga Alcega também é da geração de netos de desaparecidos da Guerra Civil. "Não quero vingança, mas tenho o direito de saber quem matou e por quê", declarou em relação ao assassinato de seu avô em setembro de 1936. Carteiro, ele teria sido sequestrado pela Guarda Civil. Depois de torturado, foi levado a um cemitério da cidade de Magallón, onde recebeu uma bala na cabeça. Seu corpo seria identificado apenas em março de 2011. "Foram 75 anos de esquecimento. Nesse período, nem minha avó foi viúva nem meu pai foi órfão", disse.
Alcega foi uma das que mais utilizaram o cenário da Corte Suprema para acusar o governo: "Nossos familiares estão jogados em campos como cães. A sociedade e a administração decidiram olhar para o outro lado cada vez que o tema aparecia. Para a Justiça, isso nunca foi um tema". Em Navarra, de onde vem, nenhum juiz jamais aceitou abrir uma investigação diante do que parentes apontam como mais de 3,4 mil desaparecidos apenas nos anos da Guerra Civil.
Diversas entidades também acusam a Justiça espanhola de se recusar a escutar as vítimas. Para o presidente da Associação para a Recuperação da Memória Histórica da Catalunha, Manuel Perona, "nenhum juiz jamais quis ouvir as denúncias das famílias de 1,9 mil desaparecidos na região".
Oficialmente, o argumento é sempre o mesmo. A lei de anistia, aprovada em 1977, impede qualquer ação. De fato, essa foi a acusação que as entidades ultradireitistas Manos Limpias e Associação Liberdade e Identidade apresentaram ao Supremo espanhol contra Garzón, reivindicando outros 20 anos de suspensão do juiz. Mas nem sequer o promotor do Estado espanhol acatou a denúncia das entidades, considerando que Garzón não cometera delito algum nesse sentido. Tanto a ONU como tribunais em diversos países deixaram claro que, para crimes contra a humanidade, não há anistia que se sobreponha, porém Garzón teve o cuidado extra de abrir investigações contra líderes do regime de Franco que já estivessem mortos, inclusive o ditador, para deixar claro que não se tratava de uma caça às bruxas.
Do lado daqueles que tímida ou explicitamente o atacam, outro argumento levantado para impedir a investigação é o fato de que o juiz não abriu um caso sequer contra os republicanos pelo assassinato de civis aliados à Falange. Durante a audiência, Garzón deixou claro que nunca considerou que esses atos deveriam passar impunes.
Fraturada. O comportamento da Justiça reflete a divisão que o tema causa na Espanha. Cerca de 88% dos eleitores do Partido Socialista consideram que crimes da ditadura devem ser investigados. Entre os eleitores do Partido Popular, de direita e no poder, 50% dos eleitores são contra a abertura de processos.
Nessa semana, aliás, a cúpula do PP foi uma das poucas a não sair em defesa de Garzón ou lamentar a condenação. Apenas insistiu em que as decisões do Judiciário não se discutem e que devem ser plenamente respeitadas. Para as vítimas do regime, essas declarações eram um sorriso cínico de um grupo ávido por ver o fim daquele que havia investigado a corrupção no partido e que se aventurou no terreno proibido de escarafunchar a história política do país.
"Uma sociedade, para olhar para seu futuro, precisa resolver seu passado", insiste a Alta Comissária de Direitos Humanos da ONU, Navi Pillay. Reed Brody, da entidade Human Rights Watch, está convencido de que Garzón foi alvo de uma represália. "Os inimigos dele atingiram seu objetivo", declarou, chegando a colocar em questão a maturidade democrática da Espanha. "Governantes antidemocráticos não costumam perder a oportunidade de aplicar sanções penais para silenciar juízes cujo trabalho se opõe aos seus interesses", disse. "Hoje, estão em festa os narcotraficantes, os terroristas e a extrema-direita", disse Javier Álvarez, catedrático de Direito Penal da Universidade Carlos III de Madri.
Coube à filha de Garzón, Maria, escancarar a preocupação com o destino democrático da Espanha em uma carta aberta aos juízes da Corte enviada no dia da condenação do pai. "Sobretudo, desejo que este golpe, que vocês planejaram há vários anos, não se volte contra a nossa sociedade, pelas graves consequências que a jurisprudência semeada pode ter", escreveu. Maria também alerta que, pelo menos para um grupo da sociedade, a decisão dessa semana não vai fazê-los abandonar suas convicções. "A todos vocês (juízes) digo que jamais nos farão abaixar a cabeça, que nunca derramaremos uma só lágrima por sua culpa. Não daremos a vocês esse gosto", declarou.
Baltasar Garzón anunciou na sexta-feira que vai recorrer da decisão nos tribunais europeus, ciente de que fora da Espanha a resistência em olhar para as entranhas do franquismo é mínima. Mas já afirmou que pensa em deixar seu país se de fato nunca mais for autorizado a exercer sua profissão. Segundo seus advogados, ele está disposto a manter o debate sobre a ditadura, ainda que de outra forma: transformando-se no último exilado de Francisco Franco.

10.2.12

Outro artigo muito bom

Todo dia eu procuro os textos do Gilles Lapouge no Estadão. Esse daqui também está ótimo.


Fim do famoso justiceiro

10 de fevereiro de 2012 | 3h 03
É CORRESPONDENTE EM PARISGILLES LAPOUGE, É CORRESPONDENTE EM PARISGILLES LAPOUGE - O Estado de S.Paulo
O juiz mais célebre do mundo, o espanhol Baltasar Garzón, não mais investigará os infortúnios, as injustiças ou as perfídias do mundo.
Ontem, em Madri, o Supremo Tribunal decidiu que ele não poderá exercer seu ofício por 11 anos. Como está com 56 anos, a carreira de Garzón está acabada, tanto mais que ele está sendo processado em outros dois casos, o que poderá ampliar essa interdição para 20 anos.
Esse andaluz ficou conhecido cedo e de maneira estrondosa. Sua maior façanha foi a prisão do ditador chileno Augusto Pinochet em 1998. Para inquirir sobre os horrores das ditaduras na Argentina e Chile, ele convocou vítimas espanholas dos dois regimes.
Logo no começo, abriu um processo para legitimar a "ingerência" em nome da "competência universal". Conseguiu, assim, que a Espanha, em 2005, se dotasse da legislação mais avançada do mundo: mesmo na ausência das vítimas espanholas, o país pôde abrir inquéritos sobre genocídios na Guatemala, crimes no Tibete, torturas em Guantánamo sob a presidência de George W. Bush.
Pois é esse homem que agora se defronta com a Justiça de seu país, respondendo a três acusações diferentes: a primeira, que motivou a condenação de ontem, é a de ter realizado escutas ilegais num processo de corrupção contra a direita espanhola. A segunda: favorecimento de um banqueiro do qual teria recebido uma grande remuneração para fazer conferências em Nova York. E a terceira, e principal, Garzón instruiu um processo sobre os crimes do franquismo, embora tais crimes tenham sido objeto de uma anistia em 1978.
Seria o caso de pensar, então, que todo esse empenho da Justiça espanhola contra Garzón tem a ver com suas posições de esquerda? Na verdade, Garzón foi deputado socialista em 1993, mas houve uma rápida ruptura quando ele abriu um inquérito sobre os "grupos antiterroristas de libertação", organização secreta cuja finalidade era eliminar os membros da ETA, os nacionalistas bascos. E criada por quem? Por Felipe González, primeiro-ministro socialista.
Mas mesmo que Garzón seja de esquerda e considerado pela "direita franquista" um homem de esquerda, seus excessos não se explicam somente por sua posição política. Além do que, o juiz que o condenou pelo inquérito sobre os crimes do franquismo é próximo dos socialistas.
E então? Apesar da aparência discreta e a voz débil, Garzón é dado a gestos espetaculares. Os espanhóis chamam de "garzonada" a uma ação judicial que atrai atenção da mídia. E tem muitos apelidos: "buldôzer", "juiz-estrela", "Super Garzón". Como tem um ego gigantesco, Garzón choca-se com outros egos gigantescos de muitos notáveis.
Na sua fome de celebridade ou necessidade de justiça, ele não tem escrúpulos quanto aos métodos. Quando resolveu combater a ETA, os traficantes de cocaína, os terroristas islâmicos, abusou de ordens de detenção. Colocou muita gente na prisão para depois liberá-las por falta de provas.
Foi sua ofensiva contra o franquismo que despertou mais polêmica. Em 2006, ele decidiu ignorar o "Pacto do Esquecimento", que remonta a 1978, quando foi decretada uma anistia geral em troca de uma "transição democrática" aceita pelos antigos franquistas.
Como ele justificou a retomada do caso, apesar desse pacto? Renomeou o desaparecimento de republicanos durante a Guerra Civil (1936-1939) como crimes contra a humanidade, que são "imprescritíveis". Ordenou a reabertura das valas comuns e identificou os corpos de 114 mil desaparecidos. Isso abalou o Judiciário, que denunciou o fato como uma inquisição incompatível com um estado de direito. Garzón foi suspenso de suas funções em maio de 2010.
Garzón está agora numa posição perigosa. Mas há os que o apoiam. A Anistia Internacional, organizações de direitos humanos, a Comissão Internacional de Juristas. E intelectuais espanhóis como Pedro Almodóvar, Pilar Bardem ou Marisa Paredes. Na América Latina, em países que sofreram uma ditadura feroz, como Argentina e Chile, ele é respeitado. O procurador argentino do Tribunal Penal Internacional, Luis Moreno Ocampo, declarou: "Como se chocou com tantos meios diferentes, Garzón só pode ser rejeitado pelas elites. É um homem que desperta a admiração do povo e a raiva das elites".
Enfim, ele é incensado pelos espanhóis cujos parentes desapareceram na Guerra Civil, que gostariam de saber como foram mortos e em que vala seus corpos foram jogados. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Condenação do juiz espanhol

Essa vem do Estadão


Condenação põe fim à carreira de juiz espanhol que pediu prisão de Pinochet

Toga pendurada. Em decisão unânime, Suprema Corte da Espanha conclui que Baltasar Garzón é responsável por escutas ilegais em uma investigação de corrupção e o afasta da magistratura; advogados de defesa e ONGs denunciam 'motivação política' do processo

10 de fevereiro de 2012 | 3h 04
MADRI - O Estado de S.Paulo
O Supremo Tribunal da Espanha condenou ontem o juiz Baltasar Garzón, de 56 anos, por ter ordenado escutas telefônicas num processo sobre corrupção, o que põe, na prática, fim à carreira do magistrado que ganhou fama internacional por ter aberto processos contra ditadores e terroristas. Para seus advogados e ativistas, porém, foi a decisão de abrir processos contra a ditadura espanhola que lançou uma perseguição ao juiz.
Em 1998, Garzón ganhou fama global ao pedir a prisão do ex-ditador chileno Augusto Pinochet. Com a sentença de ontem, Garzón fica impedido por 11 anos de exercer qualquer atividade como juiz ou magistrado, sob a alegação de que ele abusou de sua autoridade. Por unanimidade, os juízes ainda alertaram que Garzón havia adotado métodos que hoje são usados apenas por "regimes totalitários". Francisco Baena, advogado do juiz, diz que estuda se haverá algum espaço para um apelo à Corte Constitucional ou à Corte Europeia.
Em nota, Garzón declarou rejeitar "frontalmente" a decisão e acrescentou que recorrerá às vias legais correspondentes para "combater" o veredicto. "Essa sentença, sem base jurídica, elimina toda possibilidade de investigar a corrupção e seus delitos associados, abrindo espaços de impunidade, e contribui para o objetivo de acabar concretamente com um juiz e comprometer a independência dos juízes na Espanha", afirmou, por meio do comunicado. Ele desacreditou todo o processo aberto contra ele e destaca que ele foi conduzido para "poder dar forma a uma sentença que há meses estava anunciada".
O caso em questão envolve o Partido Popular, conservador, que em dezembro venceu as eleições. Garzón investigava em 2009 alguns dos principais nomes do partido por corrupção e desvio de dinheiro. Ontem, o PP apenas emitiu nota dizendo que declarava "respeito absoluto" à decisão da corte. Já outros membros do partido preferiram comemorar abertamente a condenação. "Isso mostra a saúde de nossa democracia", apontou José Monago, um dos líderes do PP.
Na visão de ativistas de direitos humanos e juristas, a condenação não é apenas um ato isolado. Garzón também é acusado de ter violado as leis de anistia ao investigar os crimes cometidos durante o regime de Francisco Franco, um assunto que ainda divide a Espanha. O juiz alegou, em sua defesa, que crimes contra a humanidade não são protegidos por anistias.
Para seus advogados, tanto a condenação de ontem quanto o segundo processo são "politicamente motivados" para impedir que ele traga à tona os responsáveis pelo desaparecimento de 110 mil pessoas pelo regime. "A circunstância na qual a condenação foi dada não pode ser vista senão como uma punição a Garzón por ter investigado os crimes franquistas", declarou Pedro Nikken, presidente da Comissão Internacional de Juristas, em Genebra. Para ele, a expulsão de Garzón da carreira é "deplorável". Nesse segundo processo - por ter violado as leis de anistia -, Garzón corre o risco de pegar mais 20 anos de suspensão.
Odiado pela ala conservadora da Justiça espanhola, Garzón é acusado por seus detratores de ter buscado protagonismo e ter liderado processos permeados de ideologia política. Garzón rejeita a acusação, alegando que abriu processos contra o governo socialista por ter criado um esquadrão nos anos 80 para matar terroristas do grupo separatista basco ETA. Em sua lista de casos polêmicos, Garzón ainda condenou militares da ditadura Argentina e emitiu um mandado de prisão contra Osama bin Laden.
Num editorial, o New York Times chegou a alertar que " processar Garzón é uma ofensa à Justiça e à história". A ONU apontou para o risco de uma interferência política no trabalho da Justiça espanhola. / AP e EFE. COLABOROU JAMIL CHADE