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26.6.13

Esse rapaz é bom

Conheci Antonio Prata nam inha primeira estada no Spa São Pedro. Ele tinha ido lá visitar o pai, Mário Prata, habitué e, creio, sócio do lugar.
A crônica abaixo saiu na Folha de hoje. Está muito boa. Tem muita coisa para ser melhorada e corrigida neste país.

ANTONIO PRATA
Habilitando-nos
Uma reforma política é inútil se não fizermos uma reforma cultural; a corrupção nos atravessa de cima a baixo
Quando veio a carta do Detran informando que minha habilitação havia sido suspensa, fiquei mais chateado do que surpreso. Havia meses que as multas chegavam, quase toda semana, e eu não tomava nenhuma providência. Bem, eu estava apaixonado. A maioria dos pontos, aliás, vinha da mesma infração: estacionar sem Zona Azul em frente ao prédio da minha namorada. Sabe como é, começo de relação: chegávamos lá toda noite, empolgados, um sugeria parar o carro no estacionamento dois quarteirões abaixo, o outro dizia "Bobagem, deixa aí, amanhã eu acordo antes das sete e tiro", subíamos aos beijos e só acordávamos quando o sono e a CET já haviam passado.
Com dúvidas sobre as burocracias, fui a um grande despachante na zona oeste de São Paulo. A atendente puxou minha ficha: "Olha só, você tá com 61 pontos. Ia ter que ficar um ano sem dirigir, tá? Mas por R$ 1.500, em um mês, a gente te entrega a carta, zerada. É R$ 800 pra gente e R$ 700 pro Detran". "Sei, você tá me propondo subornar um cara no Detran pra me livrar da pontuação?" Longo silêncio e: "Veja bem, no caso, é mais assim uma taxa de urgência, senhor".
Liguei para outros cinco despachantes, todos me ofereceram o mesmo esquema. Aparentemente, só havia duas opções: ou eu subornava um despachante para que ele não subornasse ninguém, ou tomava coragem, respirava fundo e ia pessoalmente à toca do dragão.
No Disque Detran, uma mulher me mandou ir à rua Boa Vista, 221, levando a CNH original, cópias do RG, do CPF e de comprovante de residência. Fiquei desconfiado: não podia ser assim tão fácil --e não era. No número 221 da rua Boa Vista, uma funcionária me informou, com um prazer quase sexual: "Aqui a gente nem atende o público, querido! Entrega de CNH é na avenida do Estado, 900".
Só quem leu a "Divina Comédia", de Dante, pode ter um pálido vislumbre do inferno que se esconde na avenida do Estado, 900. Hordas de desesperados zanzavam de um lado pro outro. Famílias dormiam pelos cantos. Numa sala de espera, apenas 5 de 24 cadeiras (eu contei) estavam em condições de uso. Uma mãe, sentada no chão, amamentava seu recém-nascido. Havia manchas assustadoras pelas paredes e, se não me engano, ouvi sons de chicote, estalos de ossos e gritos vindos de alguma masmorra adjacente.
Felizmente, minha tortura resumiu-se a uma longa fila e a ser barbaramente informado, após uma hora e meia, que não aceitavam cópias do RG e do CPF. "Mas eu liguei no Disque Detran!" A moça me olhou, suspirou e, feliz com esses breves momentos de alegria que seu emprego lhe oferece, bradou por sobre o meu ombro: "Próximo!". O oitavo (juro) despachante para quem liguei aceitou, por uma fábula, "quebrar o meu galho" dentro da lei.
Quem acumula 61 pontos na carta não pode dar lição de moral. Não é essa a minha intenção, muito pelo contrário: neste momento em que nos levantamos contra a roubalheira dos políticos, seria bom que os dedos em riste também escarafunchassem um pouquinho as nossas consciências. Uma reforma política é inútil se não fizermos uma reforma cultural. A corrupção nos atravessa de cima a baixo: do financiamento das campanhas à compra de CNHs --passando, evidentemente, pelo carro do motorista apaixonado estacionado em local proibido.

21.2.13

Fiquem de olho!!

Do Estadão


Detran faz mais de 700 mil notificações por multas em excesso ou gravíssimas

Na média, mais de um condutor por minuto foi notificado entre janeiro e novembro, 14% a mais do que o registrado no ano anterior

18 de fevereiro de 2013 | 2h 01
CAIO DO VALLE , EPITÁCIO PESSOA - O Estado de S.Paulo
O número de notificações expedidas pelo Departamento Estadual de Trânsito de São Paulo (Detran-SP) para motoristas que estouraram os 20 pontos na Carteira Nacional de Habilitação (CNH) ou cometeram infração gravíssima subiu 14% em 2012. Foram 711.636 (mais de um por minuto), ante 621.771 dois anos atrás, um acréscimo de quase 90 mil alertas - os dados se referem ao período de janeiro a novembro de 2012.
O ator Arthur Berges, de 23 anos, dirige todos os dias pela cidade de São Paulo. Recebeu por volta de 30 multas nos últimos quatro anos, tendo a CNH suspensa em 2012. Mas não por infrações que ele considera arriscadas - ou seja, as que põem vidas em risco, entre as quais guiar acima do limite de velocidade. "O que me irrita é que vejo muita gente cometendo ações graves sem tomar multa."
Para justificar tantos pontos marcados em sua carteira - mais de 70 -, o jovem alega dificuldades para respeitar o rodízio e as vagas. "Trabalho em teatros distantes." Mas confessa que cometeu uma infração gravíssima (que rende 7 pontos na CNH), na região da Avenida Paulista: ultrapassagem sobre uma faixa dupla contínua.
As infrações de trânsito já o fizeram pagar mais de R$ 5 mil em multas. "Com esse dinheiro, daria para a gente ter ido viajar", comenta sua namorada, a atriz Louise Helene Schlemm, de 20 anos. Além do prejuízo financeiro, Berges conta que teve de encarar a suspensão da carteira por dois meses, além de fazer curso de reciclagem, que custa R$ 100.
Das nove infrações de trânsito mais autuadas pelo Detran-SP em 2012, quatro são de natureza gravíssima: andar com automóvel ou moto sem licenciamento, conduzir com CNH vencida há mais de 30 dias, dirigir sem CNH e pilotar motocicletas sem capacete ou roupa adequada. Embora tenha divulgado que essas são penalizações frequentes, o órgão não informou quantas multas foram aplicadas para cada uma.
Pena, recurso e suspensão. Segundo o Detran-SP, o prazo da pena é "variável" e "precede a cassação" da CNH, que "sempre ocorre pelo período de dois anos". Toda semana, publica-se a relação de motoristas paulistas que correm o risco de ter a CNH suspensa no Diário Oficial do Estado. O órgão informa ainda que, depois de receber a notificação, o motorista tem 30 dias para recorrer e apresentar a sua defesa. Se os recursos forem negados, o condutor fica em situação irregular e deve entregar a carteira no Detran-SP.
Para Jaime Waisman, doutor em Engenharia de Transportes pela Universidade de São Paulo (USP), o aumento de notificações emitidas revela um maior desrespeito às normas de tráfego no Estado. "O que teria de ser feito é uma intensificação da fiscalização de trânsito de uma forma geral, para coibir as práticas irregulares."