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27.7.15

Uma questão impressionante

Impressiona quem já mora numa das maiores cidades do mundo e fica sabendo que a China tem mais de um bilhão de habitantes. Do caderno NYT de sábado da Folha, 25 de julho

China planeja megalópole com 130 milhões de habitantes

Por IAN JOHNSON
YANJIAO, China - Toda as manhãs, às 5h30, Liu Desheng se junta a uma dúzia de aposentados que esperam o ônibus expresso para o centro de Pequim nesta pequena cidade na província de Hebei. Eles ficam na frente da longa fila, mas não embarcam.
Por volta das 6h30, chegam seus filhos adultos. A fila, que agora serpenteia pela rua, significa uma hora de espera. Começa uma série de empurrões. Porém, os aposentados pouparam seus filhos dessa provação. Quando o ônibus seguinte encosta, os jovens adultos tomam o lugar de seus pais e embarcam, sentando-se para uma viagem de 40 quilômetros que pode levar até três horas.
"Não há muito que eu possa fazer para contribuir para a família", disse Liu, 62, enquanto seu filho acenava pela janela do ônibus. "Ele fica exausto todos os dias, por isso se eu puder ajudá-lo a ficar um pouco mais descansado, farei isso."
Há décadas, o governo da China tenta limitar o tamanho da capital, Pequim, por meio de rígidas autorizações de residência. Agora, o governo planeja um ambicioso projeto para fazer de Pequim o centro de uma nova supercidade de 130 milhões de pessoas. A megalópole projetada se estenderá por 212 mil km2 e deverá remodelar a economia do norte da China.
"A supercidade é a vanguarda da reforma econômica", disse Liu Gang, professor na Universidade de Nankai, em Tianjin, que assessora governos locais. "Ela reflete as visões da alta liderança sobre a necessidade de integração, inovação e proteção ambiental."
A nova região ligará as instalações de pesquisa e cultura criativa de Pequim com a cidade portuária de Tianjin e o interior da província de Hebei.
Neste mês, o governo municipal de Pequim anunciou sua parte do projeto, prometendo transferir para o interior grande parte de sua burocracia, assim como fábricas e hospitais, num esforço para compensar os estritos limites de residência na cidade, reduzir os congestionamentos e espalhar empregos bem remunerados a áreas menos desenvolvidas.
Jing-Jin-Ji, como é chamada a região, deverá ajudar a área a acompanhar cinturões econômicos mais prósperos da China, como o delta do rio Yangtze, ao redor de Xangai, e Nanquim, no centro do país.
Diferentemente de áreas metropolitanas que cresceram de forma orgânica, Jing-Jin-Ji seria uma criação deliberada. Sua peça principal: uma expansão do trem de alta velocidade para colocar as grandes cidades a uma hora de viagem umas das outras. Porém, a construção de novas estradas e ferrovias ainda levará anos. Para muitas pessoas, a criação da supercidade, por anos, significará apenas mais tempo no transporte.
Incentivadas pelas políticas de residência relativamente abertas e pela habitação barata na província de Hebei, as pessoas estão acorrendo para subúrbios como esse. Yanjiao cresceu dez vezes em uma década, chegando a 700 mil habitantes. Mas ainda é uma cidade-dormitório para Pequim -torres de apartamentos com poucos serviços.
Muitos acreditam que os problemas de transporte serão solucionados. Um metrô e um trem leve têm inauguração planejada para daqui a três ou quatro anos, e uma nova ponte para Pequim está em construção. Mais preocupante para muitos é a escassez de hospitais e escolas. "Tudo o que vemos são cada vez mais pessoas chegando aqui", disse Zheng Linyun, que trabalha em Pequim e viaja cerca de cinco horas por dia. Seu filho de seis anos acaba de começar a escola elementar e tem mais de 65 colegas em sua classe.
Apesar de os prédios habitacionais idênticos, de 25 andares, se espalharem monotonamente pelo horizonte, há muito comércio, algumas ruas são arborizadas e o ar é muito mais limpo que o de Pequim. No entanto, a cidade não tem terminais de ônibus nem cinemas e oferece apenas dois pequenos parques. "As ruas ficam alagadas quando chove, porque não há boa drenagem", disse Xia Zhiyan, 42, empregado de uma gráfica.
Sem impostos sobre imóveis, as cidades chinesas dependem da venda de terrenos públicos para sua receita. Os municípios não podem ter outros impostos captados localmente. Por isso, cidades como Yanjiao não têm como financiar novas escolas, estradas ou ônibus.
Apesar dos problemas, vários fatores estão transformando Jing-Jin-Ji em realidade. O mais imediato é o presidente Xi Jinping, que apresentou um plano ambicioso de reformas econômicas em 2013 e aprovou a integração da região.
O plano atribui papéis econômicos específicos às cidades: Pequim deverá se concentrar em cultura e tecnologia. Tianjin será uma base de pesquisas industriais. O papel de Hebei está indefinido, mas o governo recentemente divulgou um catálogo de pequenas indústrias a ser transferidas de Pequim para cidades menores.
Melhorar a infraestrutura será fundamental. Wang Jun, historiador do desenvolvimento de Pequim, disse que criar a nova supercidade exigirá uma completa reformulação da atuação dos governos, incluindo a instituição de impostos territoriais e a permissão para que os governos locais os administrem. Só assim essas cidades poderão ser mais que provedoras da capital. "É um projeto enorme e complexo", disse Wang. "Mas, se tiver sucesso, mudará o norte da China."

8.5.12

Como o sistema judicial pode induzir comportamentos

Excelente matéria que está no Estadão de hoje. Destaquei um trecho


Brasileiro 'bom samaritano' vira herói na China

Oliveira, de 27 anos, ganhou recompensa por dar exemplo e ajudar mulher que estava sendo roubada

07 de maio de 2012 | 21h 09
Cláudia Trevisan, Correspondente, Pequim
PEQUIM - O brasileiro Mozer Rhian Oliveira, de 27 anos, está no centro do mais recente caso de heroísmo que levou os chineses a questionar por que há poucos "bons samaritanos" no país. Na sexta-feira, o gaúcho impediu que uma chinesa fosse furtada na rua, mas atraiu a fúria do ladrão e seus comparsas, que o agrediram enquanto cerca de 50 pessoas olhavam impassíveis, sem tentar ajudá-lo.
Oliveira teve a testa ferida por ladrão - Arquivo Pessoal
Arquivo Pessoal
Oliveira teve a testa ferida por ladrão
Oliveira levou 15 pontos na testa e foi recompensado pelo governo com 50 mil yuans (R$ 15,2 mil), como parte da campanha oficial que tenta inspirar os chineses a praticar boas ações. O país vive uma crise de consciência desde outubro, quando uma menina de 2 anos, Yueyue, foi atropelada duas vezes em Foshan e não recebeu socorro de nenhuma das 18 pessoas que passaram pelo local. A criança foi levada ao hospital depois que uma catadora de lixo a retirou da rua e encontrou sua mãe. Mas ela morreu alguns dias mais tarde.
Na sexta-feira à noite o brasileiro atravessava a rua na faixa de pedestres quando viu o ladrão com a mão dentro da bolsa de uma mulher, identificada como Zhu. Oliveira bateu nas costas do homem com seu guarda-chuva (fechado). O ladrão reagiu e logo dois comparsas apareceram e o atingiram no braço com a fivela de um cinto de segurança.
O gaúcho correu para a portaria do prédio onde trabalha e pela qual passa ao menos quatro vezes ao dia. Quando se abaixou para pegar uma placa na tentativa de se proteger, foi atingido na testa por um barra de ferro. A cena foi assistida por várias pessoas que o conhecem, entre elas o guarda do prédio, mas ninguém veio a seu socorro. As agressões só terminaram quando os ladrões viram sua cabeça sangrando e fugiram.
O ato heroico transformou Oliveira em uma celebridade na cidade de Dongguan, na província sulista de Guangdong (Cantão), que concentra a maior comunidade de brasileiros do país, quase todos trabalhando na indústria calçadista.
Ontem, ele recebeu a visita de 20 oficiais dos governos municipal e provincial e foi agraciado com uma placa de honra ao mérito, além de receber a recompensa em dinheiro. Também concedeu entrevistas à imprensa local. "Os representantes do governo me disseram que o povo chinês deve seguir o exemplo dos estrangeiros e também ajudar o próximo", disse Oliveira ao Estado.
Dias depois do atropelamento da menina de 2 anos, uma uruguaia atirou-se no Lago Oeste da cidade de Hangzhou para salvar uma chinesa que se afogava, enquanto os turistas locais tiravam fotos da cena, sem ajudá-la. Em março, um homem estrangeiro foi a única pessoa a socorrer uma mulher no aeroporto de Pudong, em Xangai, depois de ela ter sido esfaqueada pelo próprio filho.
No clima de crise moral, até atos banais como a da mulher ocidental que ajudou um chinês caído na rua em Xian ganharam destaque na internet chinesa. Milhões de comentários feitos online desde o caso de Yueyue criticam omissão dos chineses diante de problemas alheios e questionam as razões da apatia.
Alguns apontam o fato de que os "bons samaritanos" podem ser responsabilizados pelo que vier a ocorrer com a vítima e citam o infame precedente de uma decisão dada por um juiz na cidade de Nanquim em 2006. O episódio envolveu um homem chamado Peng Yu, que socorreu e levou ao hospital uma mulher idosa que havia caído na rua. Dias depois a família o acusou de ter provocado o acidente e pediu uma indenização. O juiz responsável pelo caso o condenou, com um argumento que justifica a lógica da omissão: "Peng deve ser culpado. Do contrário, por que ele estaria disposto a ajudar?". A decisão foi revista depois da enorme indignação popular que provocou, mas Peng ainda foi obrigado a pagar 10% das despesas hospitalares da mulher.
A escritora Lijia Zhang, autora do livro A Garota da Fábrica de Mísseis, acredita que a indiferença tem raízes mais profundas. "Na nossa cultura, há uma ausência de disposição de mostrar compaixão por estranhos", escreveu em seu blog após o caso de Yueyue. "Nós somos educados para mostrar bondade às pessoas de nossa rede de guanxi, parentes, amigos e sócios, mas não particularmente a estranhos, especialmente se tal bondade puder potencialmente afetar seus interesses", ressaltou.
Os oficias que o visitaram ontem perguntaram a Oliveira por que ele agiu para impedir o furto. "Eu disse que sou cristão e acredito no amor ao próximo. Além disso, gostaria que alguém ajudasse minha mãe e minha irmã caso enfrentassem a mesma situação", afirmou.